“Matérias podem ser ensinadas pelo cordel”
Jornal Contexto, 12/05/2009
“Uma dica: as mãos ajudam a ver.” Essa é a frase de boas vindas que Roque Magno Santos, o Livreiro, deu a todos os que se aproximaram de sua barraca na Biblioteca Viva Itinerante, no lançamento da proposta no final de abril, no Zerão, em Londrina. Com exposição de cordéis de todo o país, o livreiro convidou não somente a conhecer o mundo da literatura popular nordestina, mas também oferecia uma lição de vida.
Cordel é o nome português para barbante. A literatura de cordel nasceu no Nordeste brasileiro, onde contadores de histórias passaram, a escrever em folhetins, os contos de seus antepassados em forma rimada, com ilustrações de xilogravuras, expostas e penduradas em cordéis. Logo, os cordelistas passaram a recitar tais versos de forma melodiosa e animada com o objetivo de alcançar maior público.
Roque conta que aprendeu a ler através dessa literatura. Vindo da Bahia, ele afirma que o cordel é muito forte na cultura e no sistema de alfabetização das escolas nordestinas. “É mais fácil aprender rimando e cantando. Então a gente aprendia lendo cordéis e soletrando-os.” Com 14 anos, o Livreiro viajava vendendo livros. Com pouco mais de 20 anos escreveu seu primeiro cordel.
Magno defende uma forma diferente de ensino nas escolas. “O aluno aprende mais quando ele não é objeto, é sujeito”, defende. Seguidor da pedagogia de Paulo Freire, ele criou uma cartilha com uma nova tática de ensino escolar, onde o cordel faria parte da alfabetização da criança.
Para ele, o objetivo não é compor o currículo escolar, mas complementá-lo e o professor receberia a literatura antes do aluno e trabalharia a imaginação da criança em cima do material. “É preciso produzir junto, assim todos também aprendem juntos. Quem ouve também ensina. O cordel passaria a fazer parte da vida de todos.”
Livreiro defende o uso do cordel por apresentar uma linguagem fácil e compreensiva que, segundo ele, “entra mais fácil na cabeça”. “O objetivo não é vender cordel, é vender a idéia.” Por causa dessa facilidade da linguagem utilizada, ele defende que qualquer matéria pode ser ensinada através do método.
Com falas versejadas, Magno prega que as pessoas necessitam umas das outras para viver melhor. Para ele, um dos maiores problemas da sociedade atual é que se perdeu o encanto pelas coisas. Ele defende que nunca se deve deixar de sonhar e muito menos de filosofar. A crítica e o questionamento da vida cotidiana são essenciais para a sociedade. “O Brasil está com falta e não é de escola não. Está faltando é leitura e reflexão.”