A alma de um povo traduzida em rimas
Marcos Roman - Folha de Londrina, 30/11/2014
Tradição da literatura de cordel se mantém mesmo em regiões distantes do Nordeste brasileiro; Londrina possui um dos maiores acervos do gênero no mundo.
Celebrado em 19 de novembro, o Dia do Cordelista mais uma vez passou despercebido. Mas apesar de relegada a segundo plano na hierarquia das artes, a literatura de cordel ainda sobrevive mesmo em regiões distantes do Nordeste do País, onde sempre esteve muito presente. Embora conte com um número não muito grande de escritores que se dedicam ao estilo, Londrina possui um dos mais ricos acervos do gênero no mundo. Com mais de quatro mil títulos dedicados ao tema, a Biblioteca da Universidade Estadual de Londrina (UEL) está realizando um serviço de digitalização das obras para disponibilizá-las a pesquisas acadêmicas.
Nascido no interior da Bahia, Roque Magno Santos há mais de 30 anos traduz seus pensamentos e sentimentos em versos rimados de Cordel. "Qualquer assunto me inspira a escrever. Geralmente os poemas saem instantaneamente, mas gosto de revisá-los no dia seguinte para corrigir algumas palavras. Mas o processo de criação é bastante simples, basta respeitar a rima e a métrica", enfatiza.
Devido ao processo orgânico na criação dos poemas em cordel, Santos diz que não se considera um poeta. "Sou um simples versejador, que é quem que lida com os versos de maneira totalmente espontânea e sem tanta preocupação estética. De acordo com o dicionário é aquele que produz versos mal feitos", define o escritor que já tem mais de 30 livretos e inúmeros acrósticos publicados.
No entanto, Santos salienta que a grande riqueza da literatura de cordel reside justamente na simplicidade. Para ele, o estilo deveria ser aproveitado até como metodologia de ensino. "Fui alfabetizado pela minha mãe aos cinco anos de idade. E ela usava os versos em cordel para me ajudar a fixas as letras e palavras. A força da rima da literatura de cordel deveria ser usada em salas de aula para auxiliar no processo de alfabetização", defende.
Enquanto isso não acontece de maneira formal, Santos tem levado por conta própria a cultura do cordel a diversas escolas da cidade. "Tenho feito palestras sobre esse tipo de literatura e os alunos costumam ficar encantados com a forma rápida e dinâmica com que crio poemas na presença deles, destacando questões relacionadas à própria escola onde estudam", orgulha-se.
Formado em Artes Cênicas pela UEL, o jovem Tiago Marques descobriu a paixão pelo cordel há três anos, tornou-se um pesquisador sobre o tema e também tem ministrado cursos ensinando crianças a produzir este tipo de literatura. "Participei de um projeto sobre literatura de cordel ainda na universidade e fiquei encantado pela riqueza presente neste tipo de linguagem. Escrevi alguns poemas neste estilo e criei uma oficina de produção voltada a crianças. Pretendo me aprofundar ainda mais neste tema e contribuir para que este tipo de linguagem não caia no esquecimento."
Acervo digitalizado
A biblioteca da Universidade Estadual de Londrina (UEL) possui um dos maiores acervos de literatura de cordel do mundo, somando mais de quatro mil títulos. "A maioria dos londrinenses desconhece esse acervo riquíssimo que possuímos. Infelizmente, muita gente ainda vê esse gênero como uma coisa menor. No entanto, trata-se de uma poesia maravilhosa que nada fica a dever à poesia erudita", destaca Raimunda de Brito Batista, professora da UEL que desenvolve na França o curso de pós-doutorado sobre o tema.
Cerca de 95% do acervo de literatura de cordel da biblioteca da UEL já passou por um processo de digitalização. "A maioria dos títulos é escrita em formato de livretos com capas e páginas bastante frágeis. A digitalização é uma forma de garantir a conservação deste livros, muitos deles raros, e também uma maneira de facilitar as pesquisas dos acadêmicos, pois temos a possibilidade de encaminhar as obras por e-mail", explica a técnica de biblioteca Juliana Delpra Amaro Cardoso.
Herança dos europeus
Os nordestinos se apropriaram da literatura de cordel de tal forma que muita gente imagina que o gênero tenha nascido no Brasil. No entanto, o estilo de descrever fatos e pensamentos em versos e rimas chegou ao País pelas mãos dos europeus. "Ela surgiu na idade medieval, época em que os trovadores declamavam versos de castelo em castelo. Depois, com o surgimento da escrita, foram registrados textos de cordel em terras bastante remotas, até no Líbano, com textos escritos em árabe. Mas foram os espanhóis e portugueses que trouxeram a literatura de cordel para o Brasil", explica o pesquisador e professor Alcides Carvalho, que desenvolveu pesquisas sobre o tema para os cursos de mestrado e doutorado em literatura popular brasileira cursados na França.
Segundo ele, engana-se também quem pensa que a produção de literatura de cordel é destinada a um público limitado e que a maioria é produzida no Nordeste Brasileiro. "Devido à migração dos nordestinos para os grandes centros, a maioria dos livros do gênero é produzida em São Paulo e no Rio de Janeiro. Enquanto os livros de literatura brasileira somam cerca de três mil títulos, o livretos de cordel chegam a 25 mil. Além de ter um público já garantido, a literatura de cordel é produzida em livretos com no máximo 36 ou 42 páginas. Isso também facilita a publicação em grande escala", argumenta.
O sucesso de vendas da literatura de cordel no meio literário é atribuído por Carvalho à popularidade e riqueza de temas abordados pelo gênero. "A literatura de cordel é riquíssima e traduz de uma forma muito ampla a alma do brasileiro e a forma de vida de uma grande parcela da população", destaca.
Durante o período em que realizou pesquisas para os cursos de mestrado e doutorado sobre o tema, Carvalho viajou por diversas cidades brasileiras catalogando livretos escritos em cordel. "Cheguei a colecionar cinco mil títulos", calcula. A coleção foi doada para o acervo da Biblioteca da Universidade Estadual de Londrina (UEL).